7.12.09

Animais

Casacos de Peles
Estou numa sala de espera de um médico, folhear uma revista feminina, sobretudo as mais luxuosas, passo rapidamente à frente tentando não ver, aqueles anúncios de página inteira em que se utilizam todas as técnicas de sedução que a côr proporciona. Aquelas em que se pavoneiam criaturas femininas dentro de sumptuosos casacos de peles. Estas mulheres, que qualquer olhar penetrante vê a escorrer sangue, ostentam os despojos de criaturas que respiraram, comeram, dormiram, se acasalaram em jogos de amor, amaram os filhos, por vezes a ponto de morrer por eles, e morreram de dôr, quer dizer com dôr, como nós morremos, mas elas mortas por selvajaria humana.
O que é pior é que muitas dessas peles vêm de animais cuja raça, milhares de anos mais velha que a nossa, está em vias de extinção se nada fizermos para o evitar, e ainda antes que essas amáveis mulheres comecem a ter rugas na cara. A todos nós que dedicamos esforços e dinheiro (embora nunca o suficiente, quer de uns quer de outros) para tentar salvar a diversidade e a beleza do mundo, esses massacres repugnam-me. Não ignoro que essas mulheres são manequins, que se enfeitam desses escalpes porque é o seu ofício, como outras vezes se adornam com um soutien ou umas calcinhas chamadas tanga em honra de uma explosão atómica (mais uma agradável associação de ideias). Estas inocentes que fazem o seu trabalho (mas que sem dúvida não desdenhariam possuir aqueles casacos), nem por isso representam menos uma legião de mulheres, as que sonham com esse luxuoso inacessível ou as que, possuindo-o, o exibem como prova de fortuna e de estatuto social, de êxito sexual ou de carreira ou ainda como um acessório que as faz sentir mais seguras da sua beleza e do seu charme.
Tiremos a essas mulheres o seu último trapo-desculpa. Hoje em dia, vivam elas em Paris ou na Gronelândia, não precisam dessas peles para se aquecer. Muito boa lã e boa fibra abundam por aí para conservar e irradiar o calor para que elas não se vejam obrigadas a transformar-se em animais felpudos, como terá sido o caso na Pré-História.
Estou a atacar as mulheres, mas os caçadores são homens e os peleiros também. O homem que se orgulha de entrar num restaurante com uma mulher envolta em pêlos de animal eriçados, será um homem muito típico, mas não necessariamente um Homo sapiens. Neste domínio como em tantos outros, os sexos equivalem-se.
Lumenamena

4 comentários:

  1. Claro que elas não precisam dessas peles para se aquecerem! Eh,eh,eh,....um pouco de humor... num assunto sério, que tu bem trataste. Um abraço.

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  2. Eduardo Aleixo,

    Certamente um assunto sério, que parece passar ao lado.

    Abraços,
    Lumena

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  3. Me lembro de uma vez em que protestadores invadiram a passarela onde a Gilese Bündchen desfilava uma vez com peles. Claro que logo veio o séquito de seguranças e tratou de escurraçá-los de perto da estrela rapidinho!
    Ela nem liga pra isso. deveria sentir vergonha mesmo. Beleza só por dentro é uma coisa nojenta.
    Lindo post, amiga, parabéns por falar de maneira tão bem retratada sobre a vida desses animais... Animais que um dia se acasalaram em jogos de amor... que defenderam seus filhos... O que é que nos diferencia deles? Acho que o mais é a crueldade, que a nossa é muito mais "animal" que a dos próprios animais.
    Sem falar que o bicho homem tem uma que é so com ele, em toda a natureza - o desprezo. Essa de sabermos o que podemos fazer pelo bem do próximo e ignorarmos o nosso papel, seja em que situação for, é um insulto à nossa raça humana!
    Félicitations et au revoir.

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  4. Abdoul Hakime,

    Sim, é um insulto à nossa raça humana.
    É um completo desrespeito aos animais e ao meio ambiente. O animal é morto para consumo desnecessário.
    Vejamos, a pele é arrancada e o resto que sobra do animal vai directo para o lixo.
    Isto é tudo muito cruel, muito cruel mesmo.

    Um Abraço,
    Lumena

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